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Hipermetropia: 7 perguntas respondidas por um especialista

A hipermetropia é uma alteração da capacidade de foco dos olhos, que acaba levando a uma visão embaçada para perto e, em graus maiores e com o avançar da idade, acaba atrapalhando também um pouco na visão de longa distância.

Ao longo da carreira como oftalmologista, nós, profissionais, acabamos tendo contato com inúmeras dúvidas e perguntas que se repetem a cada novo diagnóstico de hipermetropia. Resolvi, nesse artigo de hoje, fazer um apanhado das perguntas mais frequentes que pacientes com hipermetropia (ou sintomas relacionados) nos fazem nos consultórios, para tentar ajudar um pouco mais a esclarecer alguns detalhes sobre essa alteração que ocorre nos olhos.

O objetivo desse artigo, como de todos os demais artigos desse blog, não é substituir uma consulta médica. Lembre-se que apenas o médico oftalmologista é qualificado para lidar com alterações da saúde ocular como a hipermetropia e que o auto-exame, auto-diagnóstico e auto-tratamento não são práticas que recomendamos… Afinal, não estendemos nossa formação por mais de 9 anos (6 para medicina e mais 3 para oftalmologia) por acaso, não é verdade? Se estiver em Belo Horizonte, te convido a conhecer nossa clínica de olhos para tirar suas dúvidas e para batermos um papo! Agora, vamos ao que interessa por hoje…

 

1) O que é a Hipermetropia?

A hipermetropia é uma condição de alguns olhos que faz com que os raios de luz não tenham o foco exato onde devem ter, para que nossa visão fique nítida. Na hipermetropia, esse foco está atrás da retina (diferentemente da miopia, por exemplo, em que o foco está antes da retina).

Se o foco fica atrás da retina, podemos generalizar e dizer que temos 2 principais causas para que isso ocorra:

  1. O olho, durante o desenvolvimento e por questões genéticas, acaba ficando um pouco menor do que deveria (alguns poucos milímetros já seriam suficientes para gerar um pequeno grau)
  2. A córnea e o cristalino (as principais estruturas responsáveis por esse “foco”) são um pouco mais planas do que deveriam, não conseguindo colocar o foco na posição ideal

Em ambas situações, as principais causas relacionadas à hipermetropia são genéticas e não costumamos ter problemas maiores com isso…

A hipermetropia é aferida sempre para a visão em repouso (que conseguimos quando focamos em objetos com mais de 6 metros de distância) e difere da presbiopia (ou vista cansada) porque nessa última o problema não está presente para longa distância e é reflexo apenas da queda da capacidade da musculatura fazer foco quando passamos dos 40 anos (vou explicar melhor na pergunta 3).

Veja a imagem abaixo, retirada do site da Cevipa, mostrando o que acabei de explicar sobre hipermetropia:

hipermetropia

Portanto, estamos falando de uma pequena alteração nas estruturas que fazem o foco… E como há comprometimento do foco, a visão fica embaçada.

 

2) Por que, na hipermetropia, a visão embaça para perto primeiro?

Veja a imagem abaixo (e não se assuste, que já vou explicar):

hipermetropia

 

Nela, temos a mesma lente colocada em distâncias diferentes do objeto (a vela) que está sendo focado.

Repare que, quanto mais perto o objeto está da lente (caso de cima), maior é a distância entre a lente e o foco gerado por ela. No caso de baixo, com maior distância do objeto, a lente consegue fazer o foco mais perto de si.

Agora, voltemos para a hipermetropia: na hipermetropia, o olho já trabalha no limite do foco, pois ele já está deslocado um pouco para trás, por questões genéticas, como vimos na primeira pergunta. Agora… quanto mais perto o objeto fica do olho, mais pra trás “empurramos” o foco… ou seja: mais difícil fica para que as nossas lentes naturais (córnea e cristalino) compensem essa dificuldade.

É por esse motivo que, quanto mais longe o objeto está, mais facilidade a pessoa que tem hipermetropia tem para enxergar.

A grande diferença do olho humano em relação a essa situação ilustrada acima é que as nossas lentes, até uma determinada idade, conseguem aumentar um pouco a sua capacidade de foco, quando olhamos para objetos próximos. Esse é o assunto da próxima pergunta.

Para entender mais sobre a hipermetropia, incluindo seus sintomas e como é feito o diagnóstico, acesse o artigo completo abaixo:

 

3) Tenho hipermetropia. Por que antes eu não precisava de óculos para enxergar de perto e agora estou precisando?

Dê uma olhada na tabela abaixo:

hipermetropia

Essa tabela está mostrando uma coisa que se chama “tolerância acomodativa” e sua correlação com a idade. Tolerância acomodativa, de forma resumida, seria o valor de graus de hipermetropia que os olhos conseguem “compensar” sem sentirem desconforto, em determinada idade.

Repare que uma criança de 5 anos de idade conseguiria compensar, sem sintomas, um grau de até 4,00… é claro que não levamos em consideração apenas o valor que ela consegue compensar para pensar no uso ou não de óculos (existem mais coisas envolvidas, que não vem ao caso desse artigo).

Já uma pessoa de 45 anos praticamente não consegue mais compensar qualquer tipo de grau de hipermetropia.

Portanto, podemos dizer o seguinte: quando o tempo vai passando… nossas estruturas oculares conseguem compensar cada vez menos o grau. Logo, uma pessoa que sempre teve o mesmo grau de hipermetropia, aferido com a musculatura em repouso durante um exame oftalmológico… pode não precisar de óculos até uma determinada idade e, depois dessa idade, ter a necessidade de uma complementação.

Veja o exemplo:

Se tivéssemos uma pessoa com 25 anos com 1,5 graus de hipermetropia, ela provavelmente não teria nenhum sintoma. Enxergaria perfeitamente para longe e perto, apenas com algum possível relato de cansaço em leituras prolongadas (quando a musculatura entraria em fadiga e daria sinais de relaxamento). No entanto, se nada ocorresse nos olhos dessa pessoa, quando ela chagasse perto dos 35 anos, esse 0,5 grau de diferença entre o seu grau total (1,5) e a capacidade acomodativa da idade (1,0) já começaria a ser sentido…

Quando ela tentar focar em objetos próximos, a dificuldade será ainda maior, pelo motivo que expliquei na pergunta número dois…

 

4) Tenho hipermetropia, mas não sinto nada. Por que minha visão é normal no dia-a-dia e quando vou ao oftalmologista e pingo colírios ela fica embaçada durante algumas horas?

Interessante isso, não é verdade?

Quando vamos ao oftalmologista e ele opta* por pingar colírios em nossos olhos, ele está utilizando uma substância que relaxa a musculatura dos olhos que é responsável pela contração e pelo foco. É como se os nossos olhos ficassem com capacidade 0 de contração, igual ao de uma pessoa com idade maior que 45 anos, como vimos na tabela acima…

*apenas um adendo: o uso de colírios não é obrigatório em todas as consultas. O oftalmologista pode optar por fazer um exame com ou sem uso do medicamento e isso não muda a qualidade do resultado. Existem técnicas diferentes para cada situação e os oftalmologistas possuem formações diferentes, acostumados a lidar com uma ou outra maneira de trabalho. Além da paralisia da musculatura, os colírios podem também “dilatar” a pupila, facilitando o exame do fundo do olho. No entanto, olha que interessante: existem colírios que dilatam mas não paralisam a musculatura. Logo, nem sempre uma “dilatação” embaça a visão… a recomendação é simples: procure um oftalmologista no qual você confia e deixe a parte técnica para ele. Nossa missão de vida é que você tenha uma visão saudável, e nunca o contrário!

Voltando ao caso, essa pessoa ficaria, então, sem capacidade de compensar o grau que possui no dia-a-dia… e sua visão ficaria embaçada! Alguns colírios fazem efeitos por poucas horas, outros por um período um pouco maior, podendo chegar a quase 30 dias de efeito, em casos especiais.

Logo, quando a visão embaça após a paralisia da musculatura, significa que essa seria a visão que você teria caso seus olhos não fossem adaptados à hipermetropia. Geralmente fazemos o exame com paralisia da musculatura em pessoas jovens, com menos de 45 anos, que podem conseguir compensar os graus e acabar dando a falsa impressão de que não possuem grau latente…

A contração da musculatura, no dia-a-dia, não é um problema quando ela está dentro da capacidade acomodativa e quando o paciente com hipermetropia não possui outras alterações oculares, como o estrabismo (“olho torto”), por exemplo.

 

5) Tenho muita dor de cabeça… pode ser hipermetropia?

“Em medicina, nem NUNCA, nem SEMPRE.”

Essa é uma frase célebre que escutei muito de alguns mestres em minha formação. Não existe 100% em praticamente nada na medicina… e quando a gente fala que existe, vem um caso diferente e acaba fazendo a gente ser mais humilde nas constatações.

Agora… vamos ao que é mais comum: cefaléia que é forte, em geral, não é causada pela hipermetropia. Cefaléia que vem com vômito, náusea, que acorda a pessoa de madrugada, que vem pela manhã, que é forte o suficiente para fazer alguém parar alguma atividade importante… deve ser avaliada por um neurologista o quanto antes e, claro, ter a parceria de um oftalmologista para afastar outras causas.

A hipermetropia, de uma forma geral, não causa cefaléia de forte intensidade. No entanto, pode sim causar uma cefaléia mais fraca, comum ao final do dia, principalmente naqueles dias de maior atividade para curta distância (afinal, quanto mais perto, mais a musculatura precisa “forçar”, lembra disso?), como leitura excessiva, ou excesso de uso de equipamentos eletrônicos, como smartphones e computadores.

A dor, de uma forma geral, ocorre pela fadiga muscular que ocorre ao tentar compensar um grau que está no limite da capacidade da musculatura (perto ou um pouco maior que a capacidade acomodativa) ou pela “força a mais” que precisou realizar durante o dia devido ao excesso de atividades para perto, como acabei de explicar.

Costumo fazer a seguinte pergunta aos meus pacientes: pense comigo… você consegue segurar um saco de arroz de 5kg, concorda? Não vai sentir dor e provavelmente não vai se incomodar com isso, confere? No entanto… se eu te pedir para segurar esse mesmo saco de arroz durante 12h seguidas… seu braço, no fim do dia, vai ficar doendo, concorda? No seu olho, funciona da mesma forma… para fazer uma leitura rápida, ou para compensar um grau pequeno… a musculatura dá conta. No entanto, quando passa do limite, a dor é inevitável.

Nesses casos, podemos avaliar a introdução de um óculos para ajudar um pouco essa musculatura durante essas atividades de maior exigência. É o que algumas pessoas costumam chamar de “óculos de descanso”. Acho o nome até interessante, apesar de não usá-lo, pois acho que dá a falsa sensação de que é para “descansar” e não para “usar”, rsrs.

Mas enfim… cada caso é um caso e deve ser avaliado pelo oftalmologista.

 

6) Hipermetropia tem cura?

Então… hipermetropia é uma condição do foco dos olhos, e não uma doença propriamente dita. Mas vamos considerar que você quer saber se a hipermetropia poderia sumir, ok?

Em primeiro lugar, é interessante notar que os nossos olhos passam por pequenas variações de tamanho e formato ao longo de nossas vidas. O formato do rosto muda, a pálpebra fica mais flácida e faz pressão diferente sobre a córnea e uma série de modificações fisiológicas do ser humano acabam por influenciar nessa delicada relação do foco dos olhos.

Assim sendo, é comum que os olhos sofram pequenas variações de grau ao longo da vida.

Quando nascemos, os olhos são um pouco menores (óbvio) e vão crescendo junto com nosso crescimento. É comum crianças terem um grau de hipermetropia um pouco mais elevado (repare novamente a tabela de acomodação e perceba que na infância ela consegue compensar um grau maior… coincidência ou não, divino ou não, o negócio é muito bem feito). Com o crescimento, os olhos aumentam de tamanho e o foco vai se ajustando, diminuindo a hipermetropia, até que ela se estabiliza em determinada idade.

Dali pra frente, pequenas alterações são toleráveis, mas é muito comum que o grau acompanhe o indivíduo ao longo de sua vida. Com a queda da força da musculatura, a capacidade de compensar o grau reduz e aumenta a dependência do óculos, com os anos.

Isso é o normal!

No entanto, se mudarmos a pergunta para… “é possível zerar o meu grau”? A resposta, então, é um pouco diferente!

Hoje em dia é possível realizar a cirurgia refrativa (de correção do grau da hipermetropia) em casos selecionados e após uma determinada idade (18 anos, de uma forma geral). No entanto, cada caso precisa ser avaliado de forma isolada, com exames da estrutura da córnea, do fundo do olho, e de uma série de outras estruturas para que o oftalmologista entenda se há risco excessivo ou não.

Graus de hipermetropia que só aumentam, em taxas anormais, devem ser avaliados por oftalmologista experiente, pois podem estar relacionados com outras alterações mais graves da estrutura ocular. No entanto, para fazer essa avaliação, não consideramos o grau prescrito no óculos, mas sim, o grau total que é encontrado no exame (afinal, o grau do óculos tende a aumentar com a idade, como aprendemos até aqui). Esse é um dos motivos pelos quais o paciente deve sempre manter o exame oftalmológico em dia! Não deixe de ir ao oftalmologista.

 

7) Tenho hipermetropia e, depois que comecei a usar os óculos, minha visão viciou. O que aconteceu?

Usar óculos não vicia.

No entanto, a visão boa… ah! Essa vicia!

O uso do óculos, em quem tem hipermetropia, não causa dependência ou qualquer tipo de vício relacionado. O óculos bem indicado serve para melhorar alguma coisa que não está tão legal, concorda? Então, nada mais comum do que a pessoa se sentir melhor com o uso dos óculos do que sem ele!

Em casos especiais, em que a indicação dos óculos se dá por motivos diferentes ao de oferecer uma visão melhor (como em casos de crianças com visão em desenvolvimento ou que possuem musculatura ocular com maior propensão ao desenvolvimento de olho torto, por exemplo), isso não se aplica.

Na grande maioria dos casos, ao usar um óculos bem indicado para a correção do problema, as pessoas costumam notar o seguinte efeito: ao começar a usar, uma maravilha! A visão não mais fica embaçada e os sintomas de cansaço da musculatura acabam rapidamente. Ao retirar os óculos, ao contrário, ocorre uma intolerância quase imediata: a visão parece muito pior do que antes e é muito desconfortável ficar sem as lentes corretivas.

Pense comigo: durante algumas semanas, usando óculos, a musculatura pôde atuar com tranquilidade, sem precisar compensar um grau que não conseguiria. Ela trabalhou dentro do seu alcance e se acostumou com aquilo. Ao remover os óculos, essa musculatura passa a ter que trabalhar à todo vapor, de uma hora para outra. É a mesma situação de um atleta que fica meses sem fazer atividade física e, ao voltar, quer manter a mesma intensidade: impossível.

Logo, nas primeiras horas e dias após a interrupção do uso do óculos, a visão fica muito ruim. Aos poucos, ela melhora um pouco, compensada pelo excesso de trabalho da musculatura (o que não é ideal, mas é uma forma que o corpo tem de te fazer enxergar um pouco melhor).

O “vício” relatado pelos pacientes é esse. Ou seja… algo que realmente não ocorre e é efeito de um trabalho descomunal da musculatura na tentativa de manter tudo em ordem.

 

Bem… Essas foram as 7 principais perguntas que recebo com mais frequência no consultório, sobre a hipermetropia. Espero que tenha ajudado! Se sim, deixe seu comentário aqui abaixo! Mas lembre-se que esse não é um canal para explicar a sua situação particular ou solicitar um diagnóstico. Te convido, nesses casos, a dar um pulo lá na nossa clínica de olhos para fazermos uma avaliação! Todas as informações de contato estão na página inicial do Oftalmologista Bh.